O problema do Brasil é que falta (quem defenda) roteirista

por Thiago Dottori

Desde que comecei a trabalhar como roteirista, sempre que comento o que faço é muito comum ouvir frases do tipo: “Nossa, que ótimo, porque o problema do cinema brasileiro é justamente o roteiro”; “Muito bom, porque falta roteirista no Brasil”; ou ainda: “O que faz o roteirista?”. Sinto que evoluímos bastante nos últimos anos no sentido de ter mais clareza sobre a função e a importância do roteirista no processo de produção de um filme.

No entanto, recentemente me deparei com três artigos diferentes que levam a discussão a um segundo ponto: enxergar no “excesso” de roteiro um problema. Se antes “faltava roteiro”, hoje, aqui e ali, pode-se perceber algo do tipo: “o problema é que há roteiro demais”. Junto com isso, há também uma visão um tanto distorcida do papel do roteirista no processo de criação de um filme, bem como um certo desprezo sobre sua relevância autoral.

Decidi comentar esses textos sob o ponto de vista de quem enxerga a coisa “do lado de cá”.

Em seu blog hospedado no site do Instituto Moreira Salles, o crítico José Geraldo Couto escreveu um texto com o título: “Roteiro? Pra que roteiro?” http://blogdoims.uol.com.br/ims/roteiro-pra-que-roteiro/ -- em alusão a uma frase que Godard teria dito a Billy Wilder. O artigo não se dedica exatamente a diminuir a importância do roteiro como um todo, mas há ali uma ideia, que eu percebo cada vez mais forte, de associar o trabalho de roteiro, necessariamente, a um filme mais “careta” e apegado a convenções. Como se o roteiro fosse, per se, uma camisa de força no processo criativo. Eis o que diz Couto em determinado momento:

“Os roteiristas tarimbados passaram a ser valorizados e bem pagos (...), criaram-se cursos, oficinas, laboratórios, hospitais, prontos-socorros de roteiros. Os manuais norte-americanos, como o do famigerado Syd Field, entraram em voga.
Nunca se falou tanto em “curva dramática”, “ponto de virada”, “trama secundária”, “jornada do herói” e coisas do tipo. Buscava-se “o bom roteiro” como quem busca a fórmula da felicidade eterna.
O resultado disso, com as exceções de praxe, foi uma enxurrada de filmes corretos, bem feitinhos e insípidos, sem alma, sem vida, que na ânsia de agradar todo mundo acabam não agradando ninguém (...)”


A impressão que se tem é que o trabalho do roteiro acaba por tirar do filme a sua alma, porque busca enquadrá-lo dentro de uma determinada perspectiva da “boa dramaturgia”, que tem lá as suas regras. O filme que resulta de um roteiro trabalhado é um objeto oco, sem personalidade, porque tudo o que um roteirista pretende é preencher as “regras” de roteiro. Mas será que esse filme correto, quadrado, que quer agradar a todo mundo, não pode ter também um roteiro ruim?

Parece que ao ser convidado para um trabalho, o roteirista chega com sua régua de precisão para medir o tamanho dos atos e com seu compasso para averiguar o grau do arco da curva dramática do herói. Eu adoraria ter uma régua dessas. Facilitaria bastante meu trabalho. Mas, de fato, o que eu costumo emprestar a um roteiro é minha alma, um pouco da minha experiência e muito suor. Se meu trabalho é produzir salsichas, elas são cozidas num mar de incertezas.

Sei como é comum ficar perdido no processo de criação de um filme. Para cada Godard, há uma outra centena de diretores que se sentem mais confortáveis em se empenhar na hercúlea tarefa de produzir um filme depois de pensar bastante sobre ele. E o que a gente costuma fazer é emprestar a nossa lanterna quando o filme está no obscuro terreno das ideias. Eis aí o trabalho do roteiro. Não aquele que se supõe, uma caricatura, atendendo às demandas do Syd Field como quem preenche um formulário, mas uma longa dedicação à experimentação, no papel, de diferentes universos, possibilidades narrativas, personagens e hipóteses sobre o que o filme pode ou não ser, independente de quantos atos, curvas ou pontos de virada ele tenha. Chega-se a um sólido ponto de partida. Acho mais natural que, a partir de um bom roteiro, o diretor se sinta mais livre pra criar. O roteiro não é uma camisa de força, mas uma sólida base que em vez de aprisionar, liberta. (Aliás, atualize aí o manual da moda, que agora é o Story, do Robert McKee, que na verdade não é exatamente um manual).

Outro texto que me chamou a atenção foi o brilhante artigo “Em defesa da obra” de Bernardo Carvalho na última Piauí http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-62/questoes-de-literatura-e-propriedade/em-defesa-da-obra . O assunto de seu artigo não é tanto a questão do roteiro, mas Bernardo não se furta a dar com a foice na cabeça do perdido roteirista diante da página em branco. Eis o que diz Carvalho, em determinado momento:

“Não é fortuito que associações de roteiristas de cinema tenham passado a reivindicar o reconhecimento de seus membros como autores literários – e a defender uma mudança na lei dos direitos autorais que a torne mais abrangente. Com isso, eles reiteram o princípio de indiferenciação que tanto interessa aos grandes conglomerados da internet. Roteiristas trabalham com normas e regras. Há regras para ser um bom roteirista, e elas atendem sobretudo ao modelo do cinema industrial. Não existe bom roteirista para filme experimental, por exemplo. O bom roteirista é o que domina a excelência de uma série de normas dramáticas e narrativas”.

Honestamente eu achava que a questão de autoria no cinema dito industrial tivesse sido superada a partir da leitura de Truffaut sobre a obra Hitchcock. Será que o autor não se faz menos no processo de produção ao qual está inserido e mais naquilo que se pode observar a partir do conjunto de sua obra? Também acho essa distinção entre “Cinema de Indústria” e “Cinema de Autor” equivocada, porque é possível perceber a presença de autores no cinema industrial (Tim Burton, Scorsese, Charlie Kaufman...), bem como a presença de réplicas no universo do cinema autoral (nesse caso, ficamos sem exemplos) -- filmes que de certa maneira emulam determinados códigos e procedimentos narrativos consagrados no circuito de festivais. Mas, acima de tudo, me chama a atenção a frase: “Não existe bom roteirista para filme experimental”.

No último Festival de Cinema de Paulínia, depois de assombrar o lotado teatro com seu “Febre do Rato”, Claudio Assis concedeu sua coletiva de imprensa. Em meio às perguntas, Claudio falou sobre o seu trabalho com Hilton Lacerda, roteirista de “Febre do Rato”. Claudio disse algo como (se não me falha a memória): “Esse filme começa no meu trabalho com o Hilton. É ele quem entende e traduz as minhas loucuras”, seguido por uma série de elogios ao trabalho de seu parceiro. Lembro, nesse mesmo Festival, de uma ótima frase de Xico Sá: “O Hilton é quem dá voz do cinema pernambucano” (uma vez que Hilton é habitual parceiro de diversos diretores de lá). Acho que o cinema de Assis não é exatamente o que se pode chamar de cinema industrial. E veja você, ainda assim, está ali a figura do roteirista e sua fundamental participação na co-autoria da obra.

Seria esse um exemplo único? Ou o que seria do cinema de Buñuel sem Jean Claude Carriere? O que seria do cinema de Beto Brant sem a parceria de Marçal Aquino? Aliás, não teria o próprio Godard feito seu Acossado a partir de um roteiro de Truffaut? Grandes roteiristas podem também propor roteiros para grandes diretores, como o caso do brilhante roteiro
Chinatown, de Robert Towne, que se tornou um clássico nas mãos de Polanski.

Ou mesmo aqueles que não trabalham com um roteirista, mas são grandes roteiristas de seus próprios filmes. É visível como Almodovar domina a narrativa e trabalha o roteiro, ou como o cinema de Lars Von Trier é ancorado num profundo senso dramático, bem como o cinema de Michael Haneke e dos irmãos Dardenne; e se Tarantino é admirado pela sua condução, também é exaltado pela maneira como escreve seus filmes. Se são considerados grandes autores, em parte é porque escrevem excelentes roteiros.


Há ainda um terceiro texto, de Cezar Migliorin http://a8000.blogspot.com/2011/11/em-defesa-da-obra-as-obras.html  que se trata de uma “carta/comentário” ao artigo de Bernardo Carvalho. Sem o brilhantismo do primeiro, Cezar trata de se contrapor a uma série de apontamentos de Carvalho. Mas há algo que os dois concordam, que é rebaixar a função do roteirista como autor. Diz Migliorin:

"O caso dos roteiristas brasileiros, que citas, é efetivamente exemplar. Eles exigem direitos autorais não para as cópias de um roteiro eventualmente vendido na internet ou nas livrarias, mas um direito que deve ser pago em cada sessão de cinema. Ora, vai aí uma compreensão muito equivocada do que é o cinema. Um roteiro em um filme não existe sem atores, montagem, fotografia, música, som, direção de arte, etc. A demanda dos roteiristas é descabida por que se tal lógica for levada a sério a prática cinematográfica se inviabilizaria, uma vez que todos esses profissionais teriam, também, que receber direitos autorais, todos eles trabalham com suas competências técnicas e artísticas e, na maioria dos casos, são pagos por isso".

Digo que essa lógica (onde diretores e roteiristas recolhem direitos autorais) já é levada a sério em vários lugares do mundo e em nenhum deles a prática cinematográfica se inviabilizou. Sem querer diminuir o trabalho de qualquer um no processo de criação de um filme -- não há quem não saiba que um filme é fruto do trabalho de muitas pessoas envolvidas num longo processo -- acredito que que diferencia o trabalho do roteirista de todos os outros parceiros na elaboração de um filme é a folha em branco. O roteirista lida com o vazio da criação, é ele que se empenha em levantar um universo e criar a primeira versão de um filme. A partir do roteiro, todos tem um ponto de partida. Não estamos fazendo um filme qualquer, mas aquele filme.

Há também uma questão importante, que é a atual situação do recolhimento de direito autoral -- que hoje é recolhida apenas pelo ECAD, em relação à trilha sonora. Nós apenas defendemos a inclusão dos roteiristas e dos diretores nesse recolhimento. E acho que temos razão de lutar por isso. Costuma ser assim em várias partes do mundo.


Por fim, acho que o roteiro é tão imprescindível ao cinema como uma câmera. Ainda que se parta para a filmagem sem nada (“uma ideia na cabeça”, que seja), é inevitável que na montagem você acabe lidando com as questões narrativas, com a construção de uma estrutura (como é muito comum no documentário, onde diversas vezes o montador assume também a função de roteirista, sem ter escrito uma palavra no papel).

Enfim, se em muitos lugares há uma compreensão bastante clara da participação e da importância do roteirista na autoria de um filme, talvez aqui seja o caso de debatermos mais e entendermos melhor o papel desse sujeito.

Thiago Dottori é roteirista. Escreveu os filmes “Vips” (com Bráulio Mantovani), “Os 3” (com Nando Olival) e a série “Trago Comigo”, de Tata Amaral, entre outros.



Escrito por Autores de Cinema às 10h58
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