Bráulio Mantovani fala sobre Tropa de Elite 2
Por Thiago Dottori Bráulio Mantovani é um dos principais escritores de cinema do Brasil. É membro da Academy of Motion Pictures, Arts and Sciences, do Writers Guild of America (WGA) e um dos fundadores da Autores de Cinema (AC), a associação brasileira dos escritores de cinema, que mantém esse blog. Escreveu o roteiro de Cidade de Deus, pelo qual foi indicado ao Oscar, em 2004. De lá pra cá, assinou, entre outros, o roteiro de "Última Parada: 174", de Bruno Barreto, colaborou com Walter Salles no filme "Linha de Passe" e em "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger. É co-autor do roteiro do filme "Vips", vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Cinema do Rio (2010). Bráulio divide com José Padilha o crédito de roteiro em "Tropa de Elite e "Tropa de Elite 2".
Bráulio, antes de mais nada, parabéns pelo filme. Os números iniciais mostram que é o maior lançamento da história do cinema nacional. Mais de 1 milhão de pessoas apenas no primeiro final de semana. Vocês esperavam por isso?
Eu não crio expectativas. Já me frustrei muito na vida. Eu faço o meu trabalho e espero para ver o que acontece. Quando é bom, como neste caso, comemoro. Quando não é, não sofro além do necessário.
Um dos créditos que mais me chamou a atenção no Tropa é o que você divide com o Wagner Moura, como co-produtores do Tropa 2. Isso pra mim refletiu imediatamente numa profunda valorização do seu trabalho no filme, e por extensão, da importância do trabalho do roteirista.
Wagner e eu entramos no filme investindo nossos cachês. Nós compramos a ideia do Zé de fazer o filme com distribuição independente. Para viabilizar essa ideia, a gente precisava ajudar. Foi muito duro, pois fiquei muito tempo sem receber e acabei me vendo em sérias complicações financeiras. Mas não me arrependo. Estou muito orgulhoso de ter participado do filme como escritor e investidor. Na essência, porém, o trabalho não foi muito diferente do que costuma ser em outros filmes. Eu sempre me envolvo muito nos projetos e acabo ganhando menos do que merecia. Acontece com todos nós, escritores de cinema. Considerando que o normal é escrever mais versões de roteiro do que as que estão estabelecidas em contrato e trabalhar ao longo de anos para chegar a um roteiro final, acho que todos nós deveríamos ter o status de co-produtores, por uma questão moral. Claro que, em caso de lucro, deveríamos também ter uma participação.
O José Padilha é um diretor que valoriza a sua participação no processo? Ele "respeita" o roteiro?
O Zé valoriza a participação de todo mundo que se envolve no filme. Nesse sentido, ele é muito parecido ao Fernando Meirelles. Talvez isso tenha a ver com o fato de ambos fazerem filmes que dão certo. O Zé trabalha muito o roteiro. Ele inclusive assina o "Tropa 2" comigo. A versão final, de filmagem, é dele. Eu voltei depois, na montagem, para aparar algumas arestas junto com ele e o Dani.
Já não é a primeira vez que você trabalha num filme que tem o Daniel Rezende como montador. Um ajuda no trabalho do outro?
Diz o Luiz Bolognesi que o montador é o melhor amigo do escritor do filme. Concordo. O montador ajuda a resolver problemas que a gente nem percebe que existem quando termina o roteiro. No caso do Daniel, essa parceria é especialmente prazerosa. Além de muito talentoso, o Dani é uma grande pessoa, tem um senso de humor incrível e é um grande contador de histórias. Não é só um parceiro de trabalho. É um grande e generoso amigo.
Quanto tempo pra escrever o roteiro?
Acho que todo o processo levou um pouco mais de um ano. Foi um trabalho muito intenso, com muita dedicação. Acho que tivemos umas 7 ou 8 versões de roteiro. Na montagem, fizemos pequenos ajustes.
Como você vê a questão do "voice over", ou "off", do Capitão Nascimento? É um recurso que te agrada? Está na medida certa?
É um recurso narrativo como outro qualquer. Pode ser bem ou mal usado. Em alguns filmes, é absolutamente necessário. As duas primeiras versões do roteiro do "Tropa 2" não tinham narração. Não funcionavam bem. Esse tipo de filme pede narração. Ou seja: não se trata de ser um recurso que agrade ou desagrade. A questão é: trata-se de um recurso necessário ou não?
É possível dizer que por trás do que o Nascimento diz há uma tese que vocês, autores do filme, querem formular sobre o Brasil?
Do meu ponto de vista, como um dos escritores do filme, a "tese" que o Nascimento elabora é dele mesmo. Insisto nas aspas, porque tese é coisa de acadêmico e nós fizemos um filme de ficção que tem, em primeiro lugar, o propósito de contar uma boa história. E o nosso personagem não é um acadêmico, é um policial.
A "tese" do Nascimento é baseada em fatos. E tem a ver, na verdade, com as conclusões da CPI das Milícias, do deputado Marcelo Freixo, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Por isso, nem é bem uma tese, mas muito mais uma descrição dos fatos. E os fatos são os seguintes: as milícias no Rio de Janeiro são formadas por agentes do poder público (policiais, bombeiros e até militares do exército). Os milicianos impedem que as comunidades sejam dominadas por traficantes. Cobram uma taxa de segurança. Na verdade, vendem proteção contra eles mesmos, pois quem não paga se dá mal. Pode até morrer. Os milicianos também cobram taxas sobre todos os negócios feitos nas comunidades onde eles se instalam.
Eu assisti a dezenas de horas de depoimentos de milicianos na CPI, gravados pela TV Alerj. Muitos deles foram eleitos vereadores ou deputados. Quer dizer: a milícia é uma forma de crime organizado, pois se infiltra no estado por dentro, elegendo representantes no parlamento. Como a milícia arrecada muito dinheiro, pode investir em campanhas políticas. E por ter um forte poder de intimidação nas áreas onde atuam, as milícias transformam as comunidades em currais eleitorais. Resumindo: milicianos têm dinheiro e votos. Você conhece algum político que não precise de dinheiro para suas campanhas e votos para se eleger? Todos precisam. E muitos não se importam em saber de onde vem o dinheiro e os votos.
Não existe um PM (Partido da Milícia). Os milicianos fazem parte de partidos políticos constituídos. Participam de alianças nas épocas das eleições. Em resumo: são agentes do poder público que enriquecem de maneira ilícita e entram na política para defender seus interesses e influenciar decisões de governo. Isso é um fato, não é uma tese. É isso o que o filme mostra, por meio da história ficcional vivida pelo comandante Nascimento. Em outros países, como o México, as milícias têm um poder enorme e, em algumas partes do país, assumem o poder de fato, formando um espécie de governo paralelo. Quem deseja o poder deseja sempre cada vez mais. Não é um absurdo supor que milicianos ou políticos associados a milicianos não queiram chegar à esfera federal. É claro que eles querem. Sendo eleitos, vão defender os interesses deles, que são os interesses do crime organizado.
Esse é o sistema que Nascimento descreve. É o mesmo sistema do primeiro "Tropa de Elite". Aquele sistema em que policiais corruptos arrecadam dinheiro do jogo do bicho e do tráfico. O mesmo sistema que não multa carros estacionados em local proibido, perto de uma oficina mecânica, para conseguir peças para as viaturas. Alguém duvida que tal sistema exista? Não dá para duvidar. As milícias são a evolução desse sistema. E ao entrarem diretamente no jogo político, elegendo representantes, elas levam esse sistema para a política. Essas coisas estão acontecendo no Brasil. Muitos milicianos foram presos. Mas muitos políticos cujos vínculos com milicianos são inegáveis foram eleitos e estão soltos. Caras assim estão tomando decisões que afetam todos os brasileiros. O Nascimento se dá conta disso no filme. Muitos brasileiros do mundo real se dão conta de fatos semelhantes lendo os jornais.
Pelo que tenho lido, parece que há um consenso cinematográfico sobre o filme: Tropa 2 prende a atenção, é muito bem feito, dotado de qualidades cinematográficas indiscutíveis, ótimo roteiro, direção, atuação, montagem. Mas, ainda na questão política, tenho visto opiniões distintas. Alguns dizem que o Tropa 2 "simplifica" demais a visão política sobre o Brasil, jogando toda a culpa no tal do "Sistema". Quando mostra Brasília, por exemplo, parece que quer dizer que "todos os deputados são exemplos desse mal". Eu penso que o Tropa 2 promove uma "exaltação" da política, na figura do deputado honesto e de esquerda. Penso que é através dele que o Nascimento encontra sua única solução. Como você vê essas questões?
Eu concordo com você. Nem o filme nem o personagem do Nascimento afirma em nenhum momento que todos os políticos são igualmente corruptos. Não existe essa simplificação no filme. Isso é coisa de crítico que não assiste ao filme com atenção porque passa metade do tempo pensando nas frases "inteligentes" que ele vai escrever depois para se sentir importante. O que o filme mostra é que um deputado eleito com apoio de milicianos (que financiaram sua campanha) chega ao congresso nacional e vira presidente de uma comissão de ética. Quem lê jornais sabe que essa situação ficcional não é impossível de acontecer na realidade. O "sistema" sobre o qual Nascimento discorre é, nas palavras dele, "uma articulação de interesses escrotos". Esse sistema almeja o poder em suas mais altas esferas. É isso o que diz Nascimento. E isso é um fato, não é uma tese.
Evidentemente, o filme simplifica algumas coisas como qualquer filme faria. Um filme, para ser um bom filme, precisa delimitar os seus temas segundo o universo da história que deseja contar. O universo de "Tropa de Elite 2" é o da segurança pública do Rio de Janeiro e sua relação com as milícias. Foi essa a complexidade que buscamos no filme, combinando-a com a história pessoal de Nascimento. Para ir mais fundo no universo da política, seria preciso fazer um outro filme, cujo personagem principal não seria Nascimento, mas o deputado Fraga.
A convergência entre os interesses de Nascimento e Fraga no filme não é, para mim, uma questão política. É pura dramaturgia. Penso que é muito interessante para o personagem durão do Nascimento perceber que aquele que era considerado sua nêmesis é, ao final, seu aliado mais importante. Eu gosto dessa curva dramática, independentemente de quaisquer implicações políticas. Não é legal pra c... quando o Darth Vader se volta contra o Imperador para defender o filho Luke Skywalker? É disso que se trata.
Voltando à crítica de que o filme simplifica as coisas, a verdade é a seguinte (vou generalizar injustamente, há exceções, como o Zanin): críticos são engenheiros de obras prontas. Eles não sabem fazer. Eles veem o filme pronto e projetam no que veem os seus desejos e expectativas. Quando o filme não coincide com o que eles querem ver (ou com o que eles gostariam de fazer, se soubessem fazer), eles traduzem esse descompasso em suposta falha. Cansei de ler críticas sobre filmes que escrevi com enunciados na linha: "o filme falha quando quer mostrar que...". Esse "quer mostar que", em geral, só existe na cabeça do crítico. Ele é que acha que o filme deveria querer mostrar ou provar tal coisa. Esse tipo de crítico não telefona para mim para me perguntar se eu tentei fazer tal coisa, para checar se o palpite dele está certo. Ele simplesmente conclui: o escritor fracassou. O crítico muitas vezes presume intenções que nem sempre são as intenções do artista e baseia toda a sua crítica nessa falsa suposição. Insisto: há exceções, como no caso do Zanin e do Sérgio Rizzo, que escrevem críticas muito competentes. Eu raramente leio críticas de jornais e revistas. Depois que um crítico da Folha de S. Paulo me chamou de sub-Tarantino no lançamento do "Cidade de Deus" e, meses depois, eu fui indicado ao Oscar, resolvi meu problema com a crítica à la Nelson Rodrigues: se o crítico me elogia é inteligente; se me esculhamba, é burro.
Vocês correram algum risco, sofreram algum tipo de ameaça por trabalhar os temas do filme?
Nenhuma. Eu às vezes olhava em volta, meio paranoico, quando estava na rua com o Marcelo Freixo. Ele é ameaçado de morte e anda cercado por seguranças. Mas ninguém atirou na gente.
Quais foram os principais desafios de lidar com uma continuação? Ainda mais de uma continuação tão esperada...
O maior desafio seria contar uma história nova, com os mesmos personagens e a partir do mesmo universo. Disse "seria" pelo seguinte: quando o Zé me chamou para trabalhar no filme, ele já tinha a ideia de falar das milícias. Naquela época, eu estava interessado no tema e achava que rendia um bom filme. Para mim, entrar no roteiro do "Tropa 2" era, inicialmente, uma desculpa para escrever um filme sobre milícias.
As vantagens de trabalhar com personagens que já existem é que você não precisa criá-los do zero. Você só tem que aprofundá-los, o que é sempre muito estimulante para um escritor. A desvantagem é que você tem que fazer algo diferente seguindo as regras que você estabeleceu no primeiro filme. Você não pode alterar a natureza de um velho personagem pela conveniência da nova trama. Nesse sentido, é mais fácil partir do zero, porque você estabelece os personagens segundo a trama e vice-versa.
Foi interessante trabalhar com questões essencialmente políticas? A política é um terreno fértil para o conflito e, consequentemente, para a dramaturgia?
Eu sempre gostei de questões políticas, que são de fato férteis para o conflito. Basta ler "Ricardo III", de Shakespeare.
Você já escreveu roteiros sobre os mais variados assuntos, mas existe essa questão de te vincularem a filmes em que há "violência". Isso te incomoda? É um estilo? Coincidência?
É uma coincidência. Eu me interesso por boas histórias. O tema vem em segundo lugar.
Tem alguma outra coisa sobre o filme que você queira falar?
Uma só: "Tropa 2" é muito melhor do que o primeiro filme.
Por fim: Qual é o seu próximo trabalho?
Estou dedicando meu tempo integralmente à finalização do meu romance ("Perácio - relato psicótico") que sai em novembro pela LeYa. Depois disso, vou retomar a minha peça "Menecma", que será montada o ano que vem, com direção da Laís Bodansky. E em breve, vou escrever dois filmes para o Fernando Meirelles, estamos com saudades de trabalhar juntos.
Escrito por Autores de Cinema às 08h37
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