"As Melhores Coisas do Mundo" de Luiz Bolognesi - por Aleksei Abib

 

 “O mundo está acabando.

Mas calma, isso já aconteceu cinco vezes.”

 

Pajé Kaiowá-Guarani, na filmagem de “Terra Vermelha”

 

 

Para o autor, e agora diretor, Luiz Bolognesi, os guerreiros Kaiowá são “os senhores do tempo”. Na visão do antropólogo Claude Lévi-Strauss, os povos da floresta não são culturas diferentes, mas sim “uma outra humanidade.” Foi ele quem rompeu a derradeira fronteira entre os chamados povos civilizados e “não-civilizados” no século passado para enfim “retornar à terra” na noite do último sábado, após cem anos de uma existência inesquecível. Antropólogo de formação e autor do roteiro do filme “Terra Vermelha" em parceira com o diretor italiano Marcho Bechis, Luiz compartilha o mesmo ponto de vista. “Terra Vermelha foi um encontro de duas tribos muito diferentes: a tribo do cinema, que quer contar uma história, e a tribo desses ‘senhores do tempo’, que se misturam com a própria história”, afirma. Em outro projeto, “Lutas”, sua estréia na direção, o protagonista vive por toda a história do Brasil através de sucessivas encarnações. Ao contrário do que poderia parecer, os dois filmes não são a espinha dorsal da trajetória do autor. Há anos Luiz mantém uma parceria profissional, e de vida, com sua mulher, a diretora Laís Bodanzky. Da união, nasceram vários filhos: Carolina e Mariá, são as duas filhas reais do casal. Entre os principais “filhos audiovisuais”, somam o desconcertante “Bicho de Sete Cabeças”, que influenciou a sociedade a ponto de levar a uma mudança na própria lei manicomial brasileira (o universo em que trafega o filme), e “Chega de Saudade”, que resgata um universo esquecido bem diante de nós, a velhice. “Sempre nos sentimos os mesmos jovens, são os outros que nos apontam a velhice e exigem que usemos a máscara de velhos”, lembra Luiz, ao evocar outra musa, a escritora Simone de Beauvoir, cujo “sentimento central” inspirou a história. Atualmente, ele escreve o novo filme de Laís, sobre e para adolescentes. Tal qual os Kaiowás, mas agora em sua própria tribo, Luiz caminha aos poucos na direção de também ele converter-se em “senhor do tempo” das “melhores coisas do mundo”. Ou dos mundos que escolheu contar para nós.

 

  

A.A.: Você tem uma frase de que gosto muito: “o roteiro costuma se escrever com os ouvidos.” Se compararmos o último filme que escreveu, “Chega de Saudade”, cuja trama se passa inteiramente em um salão de baile, com o próximo a ser lançado, “As Melhores Coisas do Mundo”, sobre o universo adolescente, a pergunta é inevitável: acha que sua frase se aplica a essas duas histórias? Em outras palavras: como foi escrever os diálogos para universos de personagens de fala tão distinta, como os adolescentes de “As Melhores Coisas do Mundo”, e os exuberantes sexagenários de “Chega de Saudade”?

 

L.B.: Os personagens dos dois filmes estão vivendo fases especiais da vida. Em “Chega de Saudade”, os senhores do salão vêem a morte se aproximando e precisam seguir vivendo. Os meninos de “As Melhores Coisas do Mundo” estão tirando o pé da infância e tendo que virar adultos à fórceps. Por isso, tudo que essas personagens fazem ou falam tende a ser interessante. Os diálogos permitem subtextos férteis.

 

A.A.: Em um dos ensaios de “Seis Passeios pelos Bosques da Ficção”, o escritor italiano Umberto Eco apresenta uma idéia provocante: a de que muitas vezes um personagem inserido em uma determinada narrativa antecipa o destino (por vezes trágico) a que está sujeito. Mesmo assim ele não evita este destino já que, de outra forma, a história não poderia ser contada caso tomasse um rumo diferente. Assim, antes de tudo o personagem estaria a favor dos eventos da história. Tive a impressão de que na seqüência final de “Chega de Saudade” a personagem interpretada por Cássia Kiss age de maneira semelhante em relação ao próprio destino. Como você vê a construção de seus personagens? Acredita que possuem esse grau de consciência, tal qual a descrição de Eco? A quem eles obedecem, de fato? A você, seu criador, à história, como sugere Eco, ou a seus próprios impulsos, de maneira independente?

 

L.B.: Por pressuposto os personagens deveriam obedecer a seus criadores, mas só os menos interessantes o fazem. Os mais interessantes não se deixam domar por inteiro, são dissimulados, escorregadios, têm sombras e contradições. Não se deixam traduzir integralmente.

 

A.A.: Seu novo filme, “Lutas” parte de uma idéia engenhosa e bastante desafiadora do ponto de vista técnico: o protagonista está vivo durante os mais de quinhentos anos da história do Brasil. Como foi a construção do arco, ou trajetória, desse personagem? Este também é seu primeiro longa como autor e diretor. Houve alguma mudança significativa entre seu processo de escrever exclusivamente para si mesmo?

 

L.B.:Escrever para si mesmo é bem mais pobre que escrever para um outro. A dialética entre roteirista e diretor ajuda o texto cinematográfico. Pode parecer confortável não ter que negociar nada, mas é uma impressão superficial. Cinema é uma obra de arte que se constrói pela superposição de várias camadas autorais. É melhor que os sedimentos sejam fruto da dialética que da acomodação.

 

A.A.: Você tem uma frutífera parceria, profissional e de vida, com sua mulher, a cineasta Laís Bodanzky. Em “Terra Vermelha” trabalhou com o cineasta italiano Marcho Bechis. Como foi este diálogo com outro diretor? Algo mudou, por exemplo, em sua maneira de construir as cenas?

 

L.B.: Cada diretor tem um modo de trabalhar. Bechis pensa o filme para os públicos fechados do circuito de festivais e salas de arte. Laís deseja falar com públicos maiores, levar a reflexão também para os menos acostumados. Essas diferenças impactam o modo de pensar a história, o modo de escrever, que situações escolher, como desenvolver os personagens. Gostei de trabalhar com ambos e adoro o resultado dos filmes.

 

 A.A.: Ainda em “Terra Vermelha” uma cena não me sai da memória: o fazendeiro aponta a terra e diz a um guerreiro da etnia Kaiowá que sua família (do fazendeiro) cuida dessas terras há três gerações. Em resposta, o guerreiro apanha um punhado de terra e a engole. Ele, o guerreiro, é a própria terra...Como foi para você construir esses dois personagens, ou mesmo essa cena específica,  sem cair nos clichês que normalmente acompanham os debates públicos de um tema tão delicado?

 

L.B.: A história de comer a terra foi contada pelo ator que fez o personagem. Ele nos contou que havia feito isso num encontro da Funai. Na hora, Bechis e eu nos olhamos cúmplices, cientes que estávamos diante de ouro puro. Como era importante e difícil humanizar o fazendeiro, criei um diálogo para que ele pudesse estar à altura da ação do cacique kaiowá. O duelo socrático desfez maniqueísmos e deu mais força à cena.

 

A.A.: Vê conexão entre os personagens dos diferentes filmes que escreveu?

 

L.B.: Para ser franco, não.

 

A.A.: Na entrevista de abertura desta série, com Bráulio Mantovani, iniciamos a “tradição” de investigar as referências pessoais do universo de um autor. Há algum diálogo em especial de algum filme que tenha ficado impresso em sua memória?

 

L.B.: Muitos. Para citar um, lembro da Macabéa de Suzana Amaral mastigando uma aspirina que lhe é oferecida quando vive uma profunda dor de amor, oprimida por uma máquina de escrever que ela não domina, mas precisa fazer render. Ela mastiga a aspirina e explica que o amargo do gosto é bom porque parece com a dor que ela está sentindo.

 

A.A.: E em suas histórias? Em qual cena das cenas que escreveu acha que seus personagens mais gostariam de estar?

 

L.B.: O Neto do “Bicho de Sete Cabeças” adoraria nunca ter saído dos braços da Leninha, mas eu gosto dele sufocado no cubículo pondo fogo no colchão. Seu Álvaro do “Chega de Saudade” gostaria de ser aplaudido enquanto vence mais um concurso de dança, mas eu prefiro-o de pé quebrado, revendo os fantasmas de sua vida. Osvaldo de “Terra Vermelha” talvez preferisse não ter que ser pajé e poder comer carne de vaca e a filha do fazendeiro, mas prefiro-o enfrentando angué. Todo roteirista é um pouco sádico.



Escrito por Autores de Cinema às 14h14
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Convite para Congresso

A AC repassa o convite recebido do Minc para a participação no Congresso do Direito de Autor. A participação de todos os envolvidos e interessados no assunto é realmente muito importante:

"(...) gostaria de convidá-lo (la) para participar do 3º Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, a ser realizado nos dias 9 e 10 de novembro de 2009, no Auditório do Centro de Eventos Fecomércio, situado à Rua Dr. Plínio Barreto, 285 - Bela Vista, na cidade de São Paulo.

Esse Congresso integra o Fórum Nacional de Direito Autoral e representa um importante passo para a retomada da presença do Estado na formulação de políticas públicas para um tema contemporâneo e estratégico num contexto de ambiente digital e convergência tecnológica. O foco será a análise das propostas de revisão da Lei de Direitos Autorais, que estão sendo desenvolvidas por iniciativa da Diretoria de Direitos Intelectuais do Ministério da Cultura.

Trata-se de uma realização do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, por intermédio de seu Curso de Pós-Graduação em Direito – CPGD. O Congresso conta com o apoio do Ministério da Cultura (MinC) e da Escola de Direito da FGV de São Paulo - Direito Gvlaw.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site www.direitoautoral.ufsc.br.

Contamos com a sua presença."

 


Escrito por Autores de Cinema às 22h21
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