Marçal Aquino, A.C., e Thiago Dottori, A.C., finalistas do prêmio Qualidade Brasil

Marçal Aquino, A.C., e Thiago Dottori, A.C., finalistas do prêmio Qualidade Brasil

Dois autores A.C., duas séries de peso: "Trago Comigo", escrita por Thiago Dottori, e "Força Tarefa", escrita por Marçal Aquino e Fernando Bonassi,são finalistas em suas respectivas categorias do Prêmio Qualidade Brasil.Confira e vote!

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Escrito por Autores de Cinema às 10h14
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A "Filosofia da Composição" de Bráulio Mantovani -- por Aleksei Abib

“Para nos deslocarmos dentro de um espaço é preciso um sistema nervoso.

Este sistema nervoso nos permite agir sobre o ambiente e no ambiente.

E sempre pela mesma razão: assegurar a sobrevivência.

Se a ação é eficaz, o resultado é uma sensação de prazer”

 

A narração acima surge já no bloco inicial do filme “Meu Tio da América”, de Alain Resnais, e uma primeira pergunta que nos invade a mente é: qual a sua relação com o Capitão Nascimento, Zé Pequeno, ou mesmo o menino Sandro? Na verdade, ambos, narração e personagens, trafegam livremente pelo universo particular de Bráulio Mantovani, autor das estórias seminais dos sucessos “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e, mais recentemente, da trágica saga do menino Sandro em "Última Parada 174”.

 

Para Bráulio Mantovani, mesmo no contato inicial direto com a realidade física, como no caso de “Última Parada 174”, o que interessa é a criação de uma nova realidade, ficcional, que dialoga com a primeira, mas tem modelo de funcionamento independente. Neste novo mundo, que parte do primeiro para constituir suas regras próprias de existência, a livre invenção do autor, de um lado, e a “suspensão voluntária da descrença” de parte do espectador, como ele mesmo gosta de lembrar, na outra ponta, estabelecem o vínculo necessário para o ingresso em um novo universo, similar ao original, mas que funciona de acordo com seus próprios mecanismos.

 

Neste contexto, as vivências pessoais do autor adquirem dimensão insuspeitada, uma vez que podem ecoar, consciente ou inconscientemente, nos novos universos criados a partir de seu olhar.

 

Na entrevista a seguir, que inaugura a série onde sempre um autor entrevista o outro, Aleksei Abib investiga as órbitas do fascinante universo Mantovaniano, um cosmos no qual Alain Resnais, misteriosamente, pode encontrar-se com o Capitão Nascimento.


A. A.: As estruturas narrativas das histórias que você escreve são reconhecidamente elaboradas de maneira surpreendente, mas sem revelar a chamada “costura” do roteiro. Em outras palavras, é como nas canções da Bossa Nova: estruturas altamente sofisticadas, mas onde o resultado é muito natural. Como planeja a estrutura de suas histórias? Utiliza alguma técnica especial para isso?

 

B.M.: Caramba! Acham isso mesmo? Estou lisonjeado. Principalmente com a comparação com a Bossa Nova. Sempre pensei que eu estivesse mais para o rock’n’roll. Com toda honestidade, eu não sei dizer como planejo as estruturas de um roteiro. Dou uma enorme importância à estrutura. Posso demorar três meses para escaletar um roteiro e apenas duas semanas para escrevê-lo (descrever as ações e escrever os diálogos). O único procedimento mais ou menos elaborado que eu tenho em relação ao trabalho com a estrutura é entender bem a história que eu tenho que contar. A estrutura deriva da história. “Cidade de Deus”, por exemplo, é um roteiro que conta muitas histórias. Por isso eu usei narração e descontinuidade temporal. Já “Última Parada 174” contava duas histórias que eram uma só: a história do encontro entre um filho que perdeu a mãe e uma mãe que perdeu o filho. A estrutura clássica se impôs com naturalidade.

 

A.A.: Sua formação inclui um curso de Letras, e um Mestrado em Roteiro na Espanha. Como você vê essa formação em relação a sua atuação profissional atual?

 

B.M.: Minha mãe sempre me dizia, quando eu era garoto, que saber não ocupa espaço. Acho que tudo o que você vive e estuda acaba ajudando no seu trabalho. No curso de letras, por exemplo, aprendi dois conceitos que são fundamentais quando escrevo um roteiro: função dominante (do Jackobson) e foco narrativo. Foi também no curso de letras que estudei o texto “A Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe, que considero fundamental tanto para a poesia como para a arte de escrever roteiros. No Master, na Espanha, estudei muitos roteiros e desenvolvi o hábito de “desmontar o relógio” para ver como o mecanismo funciona (que é o que faz o Poe no texto que mencionei). Sou avesso a aplicar padrões fixos na análise de roteiros (inclusive nos meus próprios). O que faz um roteiro ser bom não é a mecânica da estrutura clássica. Se você estudar os roteiros caso a caso, vai ver que em cada um deles há um “mecanismo” diferente, que faz a estrutura funcionar e empurra a história para sempre. Até do curso técnico que fiz no colegial eu trago uma idéia para os meus roteiros. Estudei física com muito afinco. Os vetores de forças (da mecânica) me ajudam a autocriticar o meu trabalho. Minha mãe tem razão.

 

A.A.: No início da carreira você atuou como roteirista do Telecurso por um bom tempo. Essa experiência teve algum reflexo em seu estilo e/ou maneira de escrever ficção?

 

B.M.: Curioso você perguntar isso. Quando o Marcelo Tas (com quem trabalhei muito proximamente no Telecurso 2000) viu “Cidade de Deus”, ele me disse: “Braulinho, você escreveu o telecurso da história do tráfico”. Programas educativos têm que se comunicar muito bem com o público. Talvez eu tenha absorvido algo disso no meu trabalho de ficção, de maneira inconsciente.

 

 A.A.: Você identifica um estilo próprio em suas histórias, mesmo ao trabalhar com diferentes diretores?

 

B.M.: Não sei dizer. Mas tenho um amigo, curiosamente holandês (não fala muito bem nosso idioma) que sempre que vê os filmes que escrevo diz reconhecer em algumas cenas o senso de humor que eu tenho no dia-a-dia. Acho engraçado ele dizer isso, mas nunca consegui entender como ele faz essa comparação.


A.A.: Que está fazendo atualmente? Pode contar um pouco sobre algum dos projetos nos quais está envolvido?

 

B.M.: Estou escrevendo a terceira versão de “Tropa de Elite 2”. Há outros projetos com os quais estou envolvido, mas não sei se vão dar certo e, por isso, prefiro não comentá-los.

 

A.A.: Charlie Kaufman, nos Eua, e Guillermo Arriaga, no México, atingiram um status onde escolhem os diretores que gostariam que dirigissem as suas histórias. Você tem roteiros autorais seus para os quais também gostaria de convidar um diretor especifico? E o que gostaria de escrever, independente de encomendas?

 

B.M.: Não, não tenho o status (nem o talento) do Guillermo e do Kaufman. Mas a verdade é que costumo escolher, dentre os projetos que me são oferecidos, aqueles que me agradam mais. Vou mais pelo projeto do que pelo diretor. Como diz o grande William Goldman (roteirista de “Todos os Homens do Presidente” e “Butch Cassidy and Sundance Kid”), “directors are insecure lying assholes” (algo como: mentirosos escrotos e inseguros). Não é uma regra que se aplique a todos, mas é bom não esquecê-la.


A.A.: Há alguma cena específica que tenha ficado em sua memória, de algum filme do qual gosta muito?

 

B.M.: Eu gosto muito de todo o início do filme “Meu Tio da América”, escrito por Jean Grualt e dirigido por Alain Resnais. São muitas cenas, cuja composição primorosa não me sai da cabeça.

 

A.A.: E há uma cena sua que aprecie em particular, filmada ou não? De que filme? Você pode mostrá-la?

 

B.M.: Acho que será sempre todo o início da galinha fugindo em “Cidade de Deus”. Foi a primeira cena que escrevi para o roteiro. A primeira redação é praticamente uma descrição literal do que está na tela. Gosto muito daquilo. Além disso, acho a cena tem um valor sentimental: eu estava muito inseguro em apresentar a cena para o Fernando Meirelles. Ele gostou tanto, que eu me senti muito encorajado por ele. Meirelles não se enquadra da definição do Goldman.

 

A.A.: Em suas entrevistas você cita com freqüência um texto clássico do escritor Edgard Allan Poe sobre a construção do personagem. Você reconhece os preceitos desse texto no resultado final de suas histórias? Poderia descrever de que maneira?

 

B.M.: O que eu aprendi estudando esse texto do Poe (“A Filosofia da Composição”) quando ainda tinha vinte e poucos anos (já tenho 46), ficou marcado para sempre na minha cabeça e se incorporou à minha intuição. Eu não tenho a pretensão de dizer que meus roteiros têm uma composição tão sofisticada e rigorosa como a de “O Corvo” (o poema de Poe que ele explica em seu texto sobre a composição). Mas eu tento seguir o mesmo tipo de procedimento (que não é uma fórmula, mas uma forma de entender o trabalho criativo) em todos os meus roteiros.



Escrito por Autores de Cinema às 09h39
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