"Trago Comigo" o roteiro: Thiago Dottori, A.C.



Com Carlos Alberto Riccelli encabeçando o elenco, está no ar pela TV Cultura a minissérie em quatro episodios "Trago Comigo". Dirigida por Tata Amaral e produzida por Matias Mariani, a série é escrita por Thiago Dottori, A.C., e conta a história de Telmo Marinicov, diretor de teatro e ex-guerrilheiro às voltas com a perda de uma parte importante de sua memória de ativista político durante a ditadura.
Nesta entrevista, Thiago Dottori revive suas próprias memórias do período em que escreveu a série.
de onde veio a ideia da série?

Quando eu fui convidado, pela Tata Amaral e pelo Matias Mariani (produtor executivo), para escrever a série, já havia uma ideia inicial super bem definida: a série seria sobre a busca de Telmo pelo seu passado. Um passado que ele gostaria de esconder, que está quase apagado, mas que na verdade deixa marcas profundas na sua personalidade até hoje.

Já havia um argumento e muito pouco tempo pra desenvolver o roteiro, mas eu achei melhor a gente trabalhar ainda mais o argumento para que toda a história sobre esse passado fosse bastante clara na nossa cabeça. Eu desenvolvia e apresentava para Tata e Matias. Nos reuníamos e continuávamos discutindo até encontrarmos fecharmos toda história e os detalhes. Uma vez que fechamos isso, parti para o roteiro.

de onde veio essa ideia de trabalhar com diversos tempos narrativos?


Sempre houve a ideia de que a peça seria a remontagem do passado, mas com algumas “licenças poéticas”. Então, em algum momento, não me lembro qual, veio essa ideia dos “Flash-Forwards”, ou seja, dos avanços no tempo, da peça montada já lá na frente e que seria sempre o espaço da memória do Telmo -- ou de como ele representaria seu passado nos dias de hoje. Acho que essa sacada narrativa deu um fluxo muito interessante para a história.

como foi o trabalho de pesquisa?

A Tata trouxe bastante coisa de memória e de coisas que ela leu ou viveu. Eu também me aprofundei nesse assunto, que já me interessa há bastante tempo. Lembro de uma visita ao novo museu que há na Luz, o Memorial da Resistência, que também foi muito marcante. É um assunto denso, árduo. Eu precisava entender a dimensão daquilo pra poder escrever.

Daí, a cada versão do roteiro, outro apoio fundamental foi da Lucia Murat, que foi nossa consultora. Era importante que tudo que aparecesse no roteiro tivesse consistência histórica. Ela sugeriu diversas mudanças no roteiro que davam mais coerência com a história de verdade.

e a ideia de trabalhar os depoimentos reais?


Eu também não me lembro ao certo o autor da ideia, mas acho que ela é tão orgânica ao processo que poderia ter sido de qualquer um. Mas, de qualquer maneira, ela já foi trabalhada no roteiro, com indicações de perguntas que deveriam ser feitas ou o assunto que deveria rondar cada parte da história. Mas se no roteiro eles estavam indicados, foi na montagem que a Tata e a Idê Lacreta conseguiram achar o ponto certo. Eles acabaram ganhando uma importância maior do que existia no roteiro. E isso me agrada bastante, porque eu acho esses depoimentos dão uma densidade absurda, são fundamentais mesmo pra gente entender o que aconteceu no Brasil.




Escrito por Autores de Cinema às 15h34
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