Palestra de Leopoldo Serran


Palestra realizada em 26/11/1986, durante o FESTRIO, na série de encontros com roteiristas nacionais e internacionais, no evento intitulado "A Importância do Roteiro Para Cinema e Televisão".

TEMA: SITUAÇÃO DO ROTEIRISTA NO BRASIL.
EXPOSITOR: LEOPOLDO SERRAN
Escritor e roteirista. 27 roteiros filmados, entre eles: "Ganga Zumba" e "A Grande Cidade" (Carlos Diegues), "Copacabana Me Engana" (Antonio Carlos Fontoura), "A Estrela Sobe" (Bruno Barreto) e "Tudo Bem" (Arnaldo Jabor), Três livros publicados: "Shirley", "Duas Histórias para o Cinema" e "Tudo Bem" (junto com Arnaldo Jabor). Leopoldo Serran acaba de concluir um roteiro para um novo filme de Ruy Guerra.



LEOPOLDO SERRAN - Acabamos de ouvir um depoimento bem deprimente, de um país que já teve a sua grandeza no cinema. Este agora será um depoimento também deprimente de um país que nem chegou à tela.***

*** Leopoldo se refere ao depoimento do roteirista italiano Massimo de Rita que, entre outras coisas, declarou que jamais assistira a um filme escrito por ele, para evitar desgostos.

A situação do roteirista no Brasil é péssima, mas é preciso se pesquisar as razões. E antes de tratar especificamente das questões do roteiro, quero considerar alguns aspectos do panorama cultural dos últimos 20 anos, não sob uma ótica sofisticada, porque eu não sou um erudito.

Minha visão pessoal sobre a conjuntura do chamado "Cinema Novo", é a de que, com exceção da fase inicial, se fez cinema debaixo de uma ditadura militar. Deixávamos de fazer apenas comédias populares ou "chanchadas", e a "classe média intelectual" resolvia "pensar por si própria". Mas sob que condições? Dizia o escritor Graciliano Ramos, quando escreveu "Memórias da Cárcere", que se deve tomar cuidado ao se falar em ditadura como justificativa para algum impedimento na escrita; e acrescentava que a ditadura nunca impediu ninguém de escrever, apenas tirou a vontade. Mais tarde, o que se viu durante os 20 anos de regime militar brasileiro? Foi o assassinato da inteligência e a substituição da verdade pela propaganda, fenômeno que começou a ocorrer a partir do primeiro pós-guerra e se agravou com a criação do sistema de redes de TV, inspirada no modelo norte-americano. Se nós ainda não fomos citados no livro "Guiness of Records", é uma falha, porque fomos o primeiro país do mundo a ter uma "revolução" deflagrada por um banqueiro careca ... Está aí uma verdade que a propaganda encobriu. Hoje, temos a "Nova República"; e quando olhamos os seus membros, da Presidência ao Ministério das Comunicações, que controla a mente da população brasileira, vemos que são as pessoas que compunham o "partido da ditadura". Quer dizer, a república não é tão nova assim ...

Quando nós importamos o tipo de sistema de TV norte-americana, importamos também a ditadura da comunicação de massa que existe nos EUA. Um regime aparentemente liberal, onde as pessoas podem dizer o que pensam, mas a voz individual nunca pode ultrapassar a voz da televisão. Portanto, o sistema de TV em rede é algo que se deve enxergar com bastante clareza, antes de se começar a falar em cinema.

Uma das idéias que eu defendo sem encontrar muito apoio, é a de que as telenovelas - as "soap operas" contadas em 300 capítulos, seis meses, às 5, às 6, às 7, às 8 e às 10 horas da noite - são uma maneira de criar "anestesiados" (como na ficção cientifica de George Orwell, "1984", ou o "Farenheit 451", de François Truffaut, onde o controle social é feito através de uma tela de televisão).

O hábito da passividade vem aos poucos atingindo a todos, inclusive aos artistas, e nós tivemos um bom exemplo disso quando foi criado o "Ministério da Cultura". Como não podemos ou sabemos resolver nossos problemas, copiamos as soluções externas americanas ou francesas. E da França, normalmente o que ela tem de mais "pedante", como o "cinema d'auteur", a "Academia de Letras" e o "Ministério da Cultura". Sobre o último, Jean Paul Sartre falou claramente: "A cultura não precisa de ministro". Se é verdade que nenhum artista aceitou ocupar este posto, nenhum também chegou a contestá-lo, isto é, a cumplicidade com o poder e o dinheiro público vivida durante a ditadura, ensinou-nos a ficar "em cima do muro". Assistimos em silêncio e nada foi dito.

Quanto ao cinema, foi sob os auspícios da "ideologia desenvolvimentista" do final dos anos 50, que a classe media começou a "falar com voz própria" - mediante influências estrangeiras. O "cinema de autor" foi uma importação francesa - cujo principal teórico era o cineasta François Truffaut - e trouxe conseqüências desastrosas para o trabalho específico do roteirista. De repente, no Brasil, todo mundo virou autor e o roteiro perdeu sua função.
Ao se estabelecerem os governos militares, o dinheiro particular que financiava o cinema desapareceu; e nós caímos na dependência da verba pública. Grupos de pressão se formaram, fortaleceu-se o cinema de autor e o roteiro continuou relegado. Mas para se saber o porquê do vazio do roteiro, há que se definir quem são os produtores e como eles foram formados na transação com o poder público. São dois os principais aspectos: o primeiro é que o dinheiro público não tem dono e passou a não ser importante o sucesso ou o fracasso de um filme para o produtor (há os que dizem que o dinheiro se ganha antes do filme e não depois). O segundo aspecto é a relação do produtor com o mercado: 50% da renda do filme vai para o exibidor, 25% para o distribuidor, fora as várias taxas, o que torna praticamente inviável o produto no mercado interno. Tudo isso num contexto de diminuição progressiva das salas de exibição, ocupadas na maior parte pelo cinema americano, que se viabiliza no seu próprio mercado (quando exportam, os produtores norte-americanos oferecem 50% para os exibidores estrangeiros).

Sem a ajuda do Estado, a produção nacional não pode se sustentar.

Então, a pergunta que se coloca é a seguinte: Terão os nossos produtores assumido esta condição por puro "tráfego de influência"? Serão eles realmente produtores? E mais: Quantos diretores deixaram o cinema como arte coletiva para "adorarem seus próprios umbigos"?

O que houve nestes últimos anos foi uma total indiferença pelo projeto. Ao contrário de qualquer outra parte do mundo, nós não produzimos projetos que virarão filmes; nós produzimos filmes, direto. Isso coloca todos os profissionais do audiovisual em perigo. Para isso eu costumo dar um exemplo "cinematográfico": a cavalaria americana, quando precisa atravessar o território dos índios, manda na frente os seus batedores, quer dizer, o projeto é a garantia, são os batedores; mas nós mandamos nossos bons técnicos e artistas diretamente para as mão dos peles-vermelhas, que os escalpam. Se alguma coisa ainda se salva com este método absurdo, é, na minha opinião, o verdadeiro "milagre brasileiro" ...

Nessa situação, o maior "bode expiatório" é o roteirista. E com algum a insistência, se ouve dizer: "O cinema brasileiro e muito bom, tem tudo, mas falta roteirista ... ". Mas como o cinema sempre foi contra o roteiro, impedindo a formação de profissionais de um gênero que por natureza e mais difícil, nós acabamos "colhendo o que plantamos" ... Tem também produtor de porte que diz assim: "Ô Leopoldo, o problema é o seguinte: não tem roteirista, nego não sabe escrever, entendeu?". Mas o roteiro não é uma coisa tão importante para ser o problema: se ele existe, é porque há também um problema de produtores. Um projeto idiota, com pagamento irrisório e safado, só pode dar um filme idiota. Sem tempo para escrever, relegado, e sem remuneração adequada ao valor do seu trabalho, o roteirista é que é o culpado ...

Vejo com grande desilusão o que esta acontecendo, e nas conversas que tenho com roteiristas, o que mais ouço falar é: "Vou sair fora". O abandono da profissão inclui até a criação de galinhas. Quando estão dentro, dizem: "Peguei aquele trabalho, precisava do dinheiro, mas já estou arrependido". A gente não precisa disto.• Se não se dedica 1% da verba total de um filme ao roteiro, o que você vai ter é a microcefalia: um corpo muito grande, com uma cabeça pequena. Isso fatalmente vai bater no número de cadeiras cheias ou vazias dentro do cinema.

Por último, eu queria dizer que fui apresentado aqui como presidente da Associação dos Roteiristas. E já que tanta coisa foi ridicularizada, vamos ridicularizar isso também - em princípio, os roteiristas não deviam se associar. Escritores devem viver sozinhos. Mas eu não sou o único, o Doc é tesoureiro da Associação. É só isso, muito obrigado.



DEBATE

ÁLVARO RAMOS - Leopoldo, uma outra prática parece que também aconteceu durante os 20 anos de ditadura. Nas cartelas de roteiro às vezes aparecem 3 ou 4 assinaturas de pessoas analfabetas e iletradas. Como é que você qualificaria o trabalho de colaboração no roteiro, que é de certa forma um roubo de créditos?

LEOPOLDO SERRAN - Não, veja, a medida que o tempo avança, isso vai diminuindo. Já foi escandaloso. É aquela coisa antiga, a tradição brasileira do ladrão de samba; o nosso grande cantor Francisco Alves, o "Rei da Voz", colocou seu nome nuns 50 sambas de crioulos analfabetos como parceiros.

ÁLVARO RAMOS - Então a prática passou para a televisão agora ...

LEOPOLDO SERRAN - O "cinema de autor" gerou uma série de desvios. De repente, nós temos também a "televisão de autor". Outro dia, eu observei nos créditos de um programa de TV: "Roteiro final de Walter Avancini" - ele também dirigia o programa. Eu queria ver o Sr. Walter Avancini escrever um roteiro inicial, porque roteiro final qualquer animal escreve. Se ele escreveu, "tiro o boné" e peço desculpas.

DOC COMPARATO - Vocês não querem lhe perguntar como e que se entra para a Associação?

LEOPOLDO SERRAN - Bom, você sabe! Do ponto de vista filosófico, vai se tentar realizar a passagem para a indústria cinematográfica. É melhor para todos e não apenas para os roteiristas, que os filmes demorem mais a serem feitos, que ao projeto seja dedicada uma boa parcela do orçamento. É preciso uma política de produção mais esperta. Essa estória de diretor de cinema dizer: "Eu tive um sonho e resolvi fazer um filme", simplesmente não dá mais. O sonho dele pode ser o pesadelo da platéia.


 



Escrito por Autores de Cinema às 16h53
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"Leopoldo Serran", por Carlos Gregório

Não convivi, ou trabalhei, com o Leopoldo. Conhecia-o de trocarmos duas ou três frases quando nos encontrávamos. Ele, sempre gentil, embora vestindo sua fúria habitual. Quando o conheci, eu não era roteirista, ainda. Era ator, e ele já era uma das lendas do cinema brasileiro. Leopoldo era "o" roteirista. Embora existissem outros, era ele quem encarnava a profissão. E, anos depois, quando os roteiristas adquiriram certa notoriedade, ele continuou sendo um símbolo. Leopoldo é, para o roteiro, o que o Paulo Autran é para os atores: o artista profissional, por excelência. Falar do Leopoldo é falar também de seu proverbial mau-humor, encharcado de ironia fina, ácida, hilariante. Ele tinha prazer em colocar o dedo na ferida das coisas e o fazia com tanta habilidade que tornava isso mais uma forma de expressão artística. E parecia detestar as explicações complicadas, que invariavelmente ocultam a verdade simples. Gostava de simplificar. Certa vez, em que estávamos participando de uma das edições do festival de Gramado, Leopoldo bradava mais um de seus esforços redutivos, sempre certeiros. Toda vez que saíamos de uma sessão, ele, que preferia não se arriscar a uma chateação, ou a ter que dar sua opinião sincera, nos esperava, do lado de fora, com a mesma pergunta sobre o filme: "Prende?" E quando se iniciavam explicações mais demoradas, ele insistia: "Mas eu só quero saber uma coisa. Se o filme prende". E assim, ia direto a algo essencial, que parecia pouco, mas que em confronto com a riqueza de sua permanente reflexão sobre o cinema, queria dizer muito. Para mim, jovem ator no início dos anos 70, Leopoldo tinha todo o aspecto de uma figura mítica: magro, comprido, com seu cavanhaque e os óculos de aros redondos. Era como um Professor Pardal da dramaturgia cinematográfica: excêntrico e genial. E era também, com sua fama de pessoa explosiva e intransigente, um paradigma de defesa da qualidade artística e da dignidade profissional de toda sua classe. Ele próprio explicou, numa entrevista: "Olha, eu andei um pouco afastado, pois sou muito briguento... arrumei muita confusão, eu tenho sensibilidade à flor da pele...Mas eu sempre briguei a favor do filme, nunca por vaidade, sempre foi para melhorar a qualidade, nunca por problemas pessoais..."
Essa declaração é o retrato irretocável de sua integridade como artista e de seu compromisso, como ser humano. Como existem pessoas falsas magras, Leopoldo era o falso mau humorado. Para os que o conheciam de perto, era impossível não ver a grande e incondicional ternura que os aros de seus óculos pretendiam esconder, numa delicada manifestação de pudor. Mas, quando lançava suas frases ácidas e conclusivas, era sempre em defesa da boa escrita. Por ela, Leopoldo era capaz de enfrentar quantos dragões e moinhos de vento fossem necessários.


 



Escrito por Autores de Cinema às 16h49
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"A falta de umidade do Planalto Central", por Di Moretti

Dificuldade de respirar, nariz sangrando, garganta seca, além destas certezas físicas; a outra, metafísica, é que Brasília sempre nos reserva no final do mês de novembro o tão aguardado Festival de Cinema. Um festival que combate a baixa umidade do ar com uma boa seleção de filmes. Nesta 41ª edição algo mudou e não foi só em relação ao clima.

A AC (Autores de Cinema) mais uma vez se fez presente no III Seminário "Roteiro em Questão". Evento que mescla teoria e prática de roteiro, usando como matéria-prima para seus debates os próprios filmes em competição no festival. Nas últimas 3 edições tivemos depoimentos emocionantes e elucidativos, entre outros, de Carlão Riechembach, Rosemberg Cariry, Evaldo Mocarzel, Luiz Bolognesi, Hilton Lacerda, José Eduardo Belmonte, Julinho Bressane, Helvécio Ratton... Testemunhos que sempre nos fazem entender melhor o filme e sua construção.

Pode se discutir opções estéticas, gostos particulares, mas é obrigatório reconhecer que dentro da proposta de cada filme estes roteiristas fizeram escolhas coerentes aos seus projetos originais e às suas visões particulares do ato de escrever cinema. Sem o espaço deste seminário estas intenções poderiam ficar perdidas no limbo das mentes destes autores.

Cito sempre o exemplo de um famoso diretor que, ao fim de um dos dias do seminário, agradeceu comovido a oportunidade de falar sobre seu roteiro, dizendo que na coletiva de imprensa do filme todos estavam mais interessados em arrancar-lhe a alma do que ouvir seu processo criativo.

A intenção desta reunião de roteiristas sempre foi dar espaço e voz para o autor falar da pesquisa, da narrativa, dos personagens, da trama... Neste ano não foi diferente, depois de uma seleção de filmes controversa, o seminário transformou-se na última trincheira onde o roteirista pode contextualizar sua obra. Mais uma vez este tipo de experiência se mostrou satisfatória, e aí falo por mim, que mesmo não gostando de alguns filmes exibidos, compreendi as razões de suas existências.

Fora isso, o Hotel Nacional, que hospeda o festival, mantém a mesma simpatia decadente de sempre. Comida ruim e dependências assustadoras que nos remetem diretamente aos cenários de alguns filmes de gênero. Os banheiros lembram "O Chamado"; os chuveiros "Carrie, a estranha"; os corredores acarpetados "O Iluminado". Mas, o Festival de Brasília também nos permite vivenciar o outro lado; encontrar colegas de profissão em animados papos de cinema à beira da piscina. Ou seja, chova ou faça sol, ar rarefeito ou não, este festival quarentão ainda continua uma experiência sensitiva completa e imperdível.

 



Escrito por Autores de Cinema às 16h47
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