"O Breguete", por Marcos Bernstein & Melanie Dimantas

No final de setembro, começo de outubro, aconteceu o Festival do Rio 2008. Desde que começou, há dez anos, o festival vem traçando um perfil mais competitivo para a Premiére Brasil, em especial a sessão de longa-metragens ficcionais brasileiros. De uma mostra que era mais uma avant premiére dos filmes produzidos no ano e ainda inéditos, o Festival passou a distribuir prêmios em algumas categorias chaves. Para isso, um júri oficial é incumbido de eleger melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor atriz, além de conferir um Premio Especial, que pode tanto contemplar um longa ficcional quanto um documentário.
Ao longo dos anos, essa competição ganhou importância e se tornou uma das mais concorridas do país.

Neste ano, um dos membros da AC, o David França Mendes, sabiamente notou que faltava no espectro de premiações uma que nos dizia respeito diretamente: o prêmio de roteiro. Por sua iniciativa, entramos em contato com a direção do Festival, que encampou a idéia de criarmos o Prêmio AC de Melhor Roteiro do Festival do Rio.

Logo surgiu o primeiro problema, criar um símbolo para ser o "prêmio", um objeto cuja palpabilidade remetesse à idéia da coisa premiada, uma indefectível estatueta careca ou cabeluda, um leão, um jogo de xadrez, um quebra cabeças ou como ficou conhecido entre nós: o “breguete”.

Maria Camargo sugeriu um amigo escultor e um mistério foi solucionado: descobrimos como nascem os prêmios, encomenda-se e pronto. No entanto, como sempre na vida, tropeçamos no item orçamento, cadê a grana que nunca está? Mas a diligente Maria não desistiu. Em reuniões com seu carpinteiro (é bom anotarmos o nome do sujeito), bolou um mimoso notebook de madeira (claro). Na fé, aprovamos o novo design, que só fomos conferir dois dias antes da premiação. Felizmente, todos achamos o “breguete” bastante simbólico, bastante lúdico, em suma, bastante bacana.

Dias antes do festival, definimos, pelas qualidades de disponibilidade e de inegável abnegação, o nosso corpo jurado composto por três associados: Melanie Dimantas, Jorge Durán e Marcos Bernstein. Ao longo de oito dias de concorridas sessões lotadas, nós três guardamos lugares uns para os outros (mais o Duran para a gente, já que ele era mais oficial que nós, pois integrava também o Júri Oficial), assistimos a todos os filmes, exercemos nosso senso crítico (!?) e, finalmente, depois da exibição do último longa em competição, sentamos no boteco ao lado do Cine Odeon, na Cinelândia, para deliberar o destino do breguete.

Foram filmes bastante diferentes os que assistimos. Alguns tinham a estrutura simples, direta, focadas em diálogos espirituosos e situações mais singelas; outros buscavam maior complexidade estrutural, com várias tramas acontecendo ao mesmo tempo. Em ambos os caminhos, havia uns mais felizes na execução, outros menos. E “Se Nada Mais der Certo” deu certo (trocadilho infame, não?). Com sua mistura de gêneros, romance, comentário social, um toque de fábula, o filme nos instigou e provocou.

Só faltava então entregar o prêmio aos roteiristas José Eduardo Belmonte e Luis Carlos Pacca. Na noite da premiação, com a minha ausência, quer dizer, de Melanie, que saiu correndo para o Equador para dar um curso, e com Durán entregando prêmio oficial, coube a Marcos a tarefa. Por isso é ele, sou eu, sei lá quem escreveu essa frase, quem aparece nas fotos. Foi sua/minha única entrada no palco, no que acabou sendo a primeira de três do diretor e roteirista José Belmonte.

PS: para dar um pouco de sabor a esse relato, uma revelação curiosa: Luis Carlos Paca não existe. Constrangido em assinar um monte de coisa no filme (direção, produção, edição, roteiro), Belmonte achou de bom tom criar seu amigo imaginário para dividir a autoria do roteiro... Assim, se o filme desse errado ele sempre poderia culpar o outro roteirista!

PPS: não dava para perder a piadinha com o famoso sentimento de perseguição dos roteiristas, mas a verdade é que Belmonte também criou um amigo imaginário para o editor...só não me pergunte o nome. A associação dos editores é no site...



Escrito por Autores de Cinema às 15h19
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